sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Jazz


A aridez anterior à música.

Cordas.
Agora não mais alinhar-se ao mundo torpe.
Não mais a ausência.

Joe Pass sangue
Joe Pass como pétala soprada do cume da montanha
Joe Pass eco
Joe Pass: lira viva
Dança que transmuta páginas ermas de livros antigos!

Enya


Uma voz.
Ecos.
Mistérios.

Havia silêncio no útero?

LENDO DE NOVO: Um pouco de Anantha*


Recordei-me, nem sei por que, e contei para ela — precisava testá-la, conhecer dela a madureza, o caráter — a história de um amigo de infância, o Edson. Era filho de um casal de pretos pobres. O pai, pedreiro; a mãe, lavadeira de roupas. Moravam a poucas casas da nossa, lá em Barreiras. Adorava ler gibis. Três anos mais velho que eu, mas o desenvolvimento intelectual retardara. Uma vez, estávamos nas estripulias no fundo do quintal. Cavávamos um buraco para tentar pular do balanço dentro dele, em cima de almofadas que, estrategicamente enfiadas na garganta da cavidade, amortecer-nos-ia a queda. Acreditávamos piamente em nossa engenharia, a abertura alcançaria mais de três metros. O balanço amarrado no pescoço da goiabeira envergada (estranha árvore, de frutos vermelhos povoados de bichos alvos, e torta: fora palco de meus testes no aprender a arte de trepar goiabeiras, coqueiros, frondosos pés de juá e mesmo arredios laranjais). Contudo, demoramos cerca de duas longas horas, debaixo do estúpido sol baiano, no revolver com a enxada enferrujada meio metro da terra vermelha. Suado, chamei-o para almoçar, pois minha avó gritara lá do alpendre que a comida esfriava na mesa. Ele fez que não com a cabeça, envergonhado. Insisti. Disse que me esperaria, que eu fosse. Pois fui, com a fome reluzente e gritante dos dez anos; almocei, refestelei-me na cadeira de tiras plásticas e lá fiquei lendo um Recruta Zero emprestado. Quando dei por mim, duas horas e um Fantasma e um Mandrake depois, corri para o quintal: lá estava o Edson, de cócoras, a me esperar, quieto, vigiando o buraco.

Mais sustos nos pregaria o Edson, porém. (Deixei para contar-lhe outra hora, Anantha, acerca do fim trágico que teve meu amigo, e as peripécias por que passou, somadas à terrível sexta-feira da paixão, quando o pai tomou-o para cristo, rigorosamente falando, e não teve centelha que fosse de paciência com o filho — tentou, antes, extraindo-lhe gotas de sangue da pele negra, com as afiadas pontas do arame com que lhe amarrara os braços e os tornozelos, dar-lhe algo de razão. impossível, vez que meu amigo sofria de invulgar deficiência mental, que o privara de viver neste mundo como todos os supostos normais que somos.) Emocionado, acelerei o carro e troquei o CD, a fim de encurtar a conversa, que prometia alongar e, talvez, chatear Anantha.

* novela minha publicada em 2004, em sete capítulos, na revista eletrônica PD-Literatura. Leia outros trechos no blog A Novela X.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

O que é o Fórum Social Mundial?


O FSM é um espaço de debate democrático de idéias, aprofundamento da reflexão, formulação de propostas, troca de experiências e articulação de movimentos sociais, redes, ONGs e outras organizações da sociedade civil que se opõem ao neoliberalismo e ao domínio do mundo pelo capital e por qualquer forma de imperialismo. Após o primeiro encontro mundial, realizado em 2001, se configurou como um processo mundial permanente de busca e construção de alternativas às políticas neoliberais. Esta definição está na Carta de Princípios, principal documento do FSM.

O Fórum Social Mundial se caracteriza também pela pluralidade e pela diversidade, tendo um caráter não confessional, não governamental e não partidário. Ele se propõe a facilitar a articulação, de forma descentralizada e em rede, de entidades e movimentos engajados em ações concretas, do nível local ao internacional, pela construção de um outro mundo, mas não pretende ser uma instância representativa da sociedade civil mundial. O Fórum Social Mundial não é uma entidade nem uma organização.

Fonte: site do FSM.

Fórum Social Mundial, a vitória da cítara


O fracasso do neoliberalismo condensa a tragédia de um pensamento utilitarista que considerava boa a democracia que estivesse adequada ao mercado, que consagrava a liberdade econômica como superior à liberdade política e, para não obstar o processo acumulativo, entregava os postos-chave do Estado aos carcereiros de qualquer aspiração republicana.

O ideal era a fragilização da esfera pública, o esmagamento de qualquer forma de auto-organização da sociedade incompatível com as práticas de negociação da empresa monopólica moderna. Isso era Davos e sua lógica binária pretensamente tranqüilizadora. “Uma “solene encenação da única ópera de Beethoven, “Fidelio”, para os menestréis da” boa gestão” corporativa.

A melhor descrição desse cenário foi feito por Marilena Chauí, em texto para a revista “Desvios” em 1984: “Tanto o mercado propriamente dito quanto a política são tratados como barganha num espaço competitivo constituído por indivíduos, grupos ou pela massa".

Se Kierkegaard descreveu a angústia como experiência propriamente humana do ser livre, a "Montanha Mágica" das finanças jamais a levou em conta. Sua realidade “transparente e apaziguadora" estava livre de qualquer pulsão dialética, apascentando administradores racionais e gerentes científicos.

Leia mais aqui.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Obedeça-me!





Quase hai quer hipnotizar você! Olhe fixamente para o centro da imagem e permaneça ali. Você visitará sempre este blog, combinado?

A matança israelense


Veja imagens da destruição conduzida por Israel, em site criado pela Al Jazeera. Clique aqui.

Antes que seja tarde


Quer poesia difícil? Vá pro Goethe, Schiller, Williams, Quasimodo, ou mesmo Lafaiete Luiz.

Quase hai agora vai de Pato Fu. Bandinha maneira, gostosa a voz da Fernanda Takai, mulher lindíssima (e aqui incluo o interno dela, que sinto deva ser, e não falho).

A moça canta bem demais, e ouvi-la é como ouvir do útero uma fada, uma eva, uma sereia no mar do Caribe! Ela escreveu:

"olha, não sou daqui
me diga onde estou
não há tempo não há nada
que me faça ser quem sou
mas sem parar pra pensar
sigo estradas,sigo pistas pra me achar"

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Fanatismo


Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver !
Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida !

Não vejo nada assim enlouquecida ...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida !

"Tudo no mundo é frágil, tudo passa ..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim !

E, olhos postos em ti, digo de rastros :
"Ah ! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus : Princípio e Fim ! ..."


Florbela Espanca, Livro de Soror Saudade (1923)

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Ouvindo Gullar


Gullar narra agora Dentro da Noite Veloz, com música de Egberto Gismonti.

Estou em Aracaju. Um amigo e sua namorada.

Ela ao fone.

Cada palavra explode puro poema.

A poesia é uma porrada na verborragia esquálida do capital. Sei que é.

?Por que ouvir Gullar para mim é um êxtase puro, nestes tempos lulistas? E vejam vocês, visitantes regrados de Quase Hai (cafezinho hoje não tem, ok?), que o bardo brasileiro mais importante vivo inventou de ficar a vituperar contra Luis Inácio - que Quase Hai ampara, reiteradamente. Mas estamos aqui, renitentes, na defesa do governo de coalizão do torneiro mecânico. Assistiram Peões e o outro filme? Assim não dá pra conversar!

O fato é que ouvir Gullar é uma viagem psicodélica, sem que necessitemos de coisa alguma, senão do espírito liberto.

Dentro da Noite Veloz.

Notícia da Morte de Alberto da Silva.

Vida.

Inferno.

Sete poemas portugueses (o fdp do Gullar os escreveu aos 21 anos - como Rosa, que escreveu Magma aos 21, acho - usou um pseudônimo: Guimarães Rosa é f.!...).

O fato é que aos dezoito eu sabia de cor Dentro da Noite Veloz e o declamaei uma vez em um curso de formação política do PT, quando compunha o Diretório Zonal do Cruzeiro, no DF.

Stop.

Hoje, vivo de atribulações registrais e notariais, morando na terra onde Virgulino Ferreira da Silva andou aprontando ("até os santos atiram na gente nesta cidade!", disse o cara, quando adentrou com seu bando em Capela - Moran, um abraço amigo.... um dia aprendo a ter a pertinácia e a displina suas...)

O texto resta concluído de modo libertário.

Somos assim.

"O vento que empurra a tarde, arrasta a fera ferida....
(...)
Sim, fevereiro resiste, como uma fera ferida.
É essa esperança doida que é o próprio nome da vida.
Vai morrer, não quer morrer.
Se apega a tudo que existe.
Na areia, no mar, na relva,
No meu coração, resiste."

Volveremos al tema, amigos.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Três quase hais


relâmpagos

chuva traz frio e vento que assovia.
principiam relâmpagos e trovões.
o menino encolhe-se no cobertor de retalhos de pano.

relâmpagos 2

tempestade por toda parte e raios na montanha.
o avô espia o tempo e lembra-se dos bois.
a avó prepara o arroz-doce para o neto.

relâmpagos 3

prosseguem ventanias e pancadas no céu.
do teto desaba poeira velha e goteiras se formam.
o menino, feliz, saboreia o arroz-doce, vendo a avó que enxuga a louça.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Dilma Vana Rousseff - Ministra-Chefe da Casa Civil


Dilma Vana Rousseff é Economista pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Mestre em Teoria Econômica pela Universidade de Campinas (Unicamp) e Doutoranda em Economia Monetária e Financeira pela mesma Universidade. Foi Ministra da pasta das Minas e Energia entre 2003 e junho de 2005; Secretária da Fazenda de Porto Alegre (1986-1988); Presidente da Fundação de Economia e Estatística do Estado do Rio Grande do Sul (1991-1993) ; e Secretária de Estado de Energia, Minas e Comunicações daquele Estado (1993-1994 e 1999-2002). Em 2002, coordenou a equipe de Infra-Estrutura do Governo de Transição instituído pelo Presidente Lula.

Fonte: Blog Os Amigos da Presidente Dilma.


Acima da cobiça, do ódio e da brutalidade!


"Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontrares, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!”

Chaplin

Israel assassina crianças indefesas




Gueto de Varsóvia, 1943, as vítimas eram judeus, ciganos, negros, não arianos e os carrascos eram os nazistas. Até hoje os judeus sionistas acham que apenas eles foram vítimas.



Gueto de Gaza, 2009, as vítimas são palestinos e os carrascos são judeus/sionistas – nazi/sionistas.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Hálitos e miríades



para você

Sabes como agradar seu bem-querer?
Meu coração se contenta, se aquece
Com muito pouco, pouco mesmo
Nesgas de teu céu em minha lua
Raspas de tuas nuvens a esmo
Fatias finas de nós, andejos
Sussuros e miríades
De hálitos após beijos
E constelações de hamadríades
Quando nos amamos, benfazejos.

Quando um pássaro brinca na grama


Todas as imponderabilidades
Incongruências
Nervuras
Todos os percalços da alma
Os desenhos opacos
Os ocres traços
Os passos tíbios

O débil olhar

Tudo tudo e tudo o mais
Vai-se embora
Quando um pássaro brinca na grama, levita, saltita,

E é visto.

Com renovado vôo, a ave ala, para retribuir a lembrança.
E vai-se embora.

Putas*


p-u-t-a-s
e outras milongas ditas
noite e dia
aqui
nestacademia
rota farrapo puro

por certos escritoresescrotoswritersescrivães
depalavrasvãsvagas
sem lume nem
voz: roucas sílabas

onde o afeto no lombo da tez da mágica
outrora pálida
palábora palávrora?
arvora
ares
ais!
putas?
deixem-nas em paz!
gregório: mata a miséria desses infames!
macera esses abjetos homens de versos vis!
fardões e peitos em estufas sem-fim! bah!
(antes abraçar o verso que resvala o céu claríssimo de brasília!)

*acerca da literatura medíocre de alguns "Magos"

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Embargo criminoso!


É chegada a hora de os EUA, com Obama, levantarem o criminoso bloqueio a Cuba. A nação-irmã caribenha nada fez para merecer a abusiva perseguição.

"Demandamos e exigimos o fim do criminoso bloqueio, genocídio premeditado pelos mesmos poderes de sempre", disse o presidente do Equador, Rafael Correa, no ato comemorativo pelo 50º aniversário da entrada de Fidel em Havana, após o triunfo revolucionário de 1959.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Relendo....


Quando virá a prometida 'nova novela'?

Seguem trechos de Anantha*:

'Escrevo quando o sol desaparece, ou logo após surgir, anunciando ao mundo novos pavores e delírios. Nestas horas, esqueço a saudade dorida, e, revivendo o amor, vivo.

Cabelo e barba, contudo, crescem assustadoramente. As noites passam brancas, povoadas de torrencial insônia e entrecortado sono. Penso, certas horas, que morri — notadamente quando Anantha evoca-me a imagem do rapaz com a flauta acompanhando os versos finais do poema da menina sardenta. Sonhos entrecortados. Repetidos. Um, em especial, surge, desenovela-se, e, indo-se e retornando nova vez, embaralha-se, confundindo-me. Geralmente é elaborado em noites chuvosas, de escassas estrelas, noites infestadas de ruídos, grilos e cães que uivam, lamuriosos. Luz opaca, amarela, na rua; sombras dos edifícios vermelhos. Gatos enfiados em touceiras de dálias. Som de sirenes num crescendo. Dois ou três veículos velozes, rumando para a cadeia, toda noite, carregando homens que perdem o sabor da chuva, o odor dos gravetos molhados e a ternura das folhas já não mais secas.'

*trecho do VII capítulo da novela Anantha (novela que escri há quatro anos).

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Bulgakov


Uma pessoa líndíssima me falou dele e de tantos outros bons romancistas e livros incandescentes!

Por isso, comecei a ler O mestre e a Margarida, de Mikhail Bulgakov, que, para ela, é um dos mais densos e belos romances já escritos.