segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Agentes cubanos em Miami, por Morais

No Correio Braziliense, entrevista com Fernando Morais sobre seu novo livro. Mais uma obra que entra para a lista dos que devem ser lidos - o que o torna interessante é o modo de sua escritura (o périplo do Fernando, garimpando informações etc).

Trecho da entrevista: "É uma coisa curiosa. No documento escrito pelo Fidel para Bill Clinton há um ponto em que ele fala de um negócio profético: se os Estados Unidos permitirem a desenvoltura de grupos terroristas em território americano, isso pode se virar contra o próprio país. É um risco que o governo americano está correndo. E me chama atenção o seguinte: todos os executores dos atentados de 11 de setembro aprenderam a pilotar aviões na Flórida. E lá não tem comunidade árabe, só hispânica. Outra coisa: no julgamento dos cubanos os advogados de defesa diziam, já depois do 11 de setembro, que o que os réus faziam nos Estados Unidos é o mesmo que a CIA está fazendo no Afeganistão. Ou seja: procurar prevenir atentados contra os Estados Unidos." Leia mais aqui.

sábado, 27 de agosto de 2011

Sobre a atividade literária

Alguns amigos escrevem regularmente, e quase sempre conversamos sobre livros e autores. Não posso me afastar deste mundo (de livros, autores e criação literária), apesar de a vida, a labuta, a tentativa de aprender o Direito - tudo sempre nos encaminha para outras ilhas, interesses e ocupações.

Nenhuma pretensão tenho; nada grandioso; apenas tenciono um dia provar pra mim mesmo que sou capaz de escrever algo que ao menos se aproxime, por exemplo, da grandiosidade de um Thomas Mann; nem que tal empreitada demore ainda algumas décadas (ora, Pedro Nava, maior memorialista da literatura brasileira, escreveu com primor por volta dos 70 até os 79 anos, caso do monumental "O Círio Perfeito".

Assim, sempre que posso, gosto de ouvir quem escreve, porque escreve, como anda escrevendo, sobre o que anda escrevendo, o que anda lendo etc.

Bem, evidente que questão crucial se impõe: vale a pena escrever na periferia do mundo? Mas que periferia é essa? O centro ainda são a Europa e os EUA, na atividade literária? Por certo que não - novas luzes surgem na Ásia, Oriente Médio, África, Japão, Brasil, Argentina.

Em texto recente, em seu blog Heloisa Buarque de Hollanda afirmou: "O estudo das novas periferias literárias que vêm se redefinindo em função das lógicas dos processos de globalização neoliberal pretende enfatizar dois movimentos paralelos e complementares na formulação de respostas e enfrentamentos culturais ao contexto político e econômico do século XXI. São eles: a literatura brasileira e a latino americana, no quadro da produção cultural e artística transnacional e dos mercados simbólicos globalizados, bem como a literatura e a cultura produzida na periferia das grandes cidades brasileiras e seu poder de interpelação e impacto na produção canônica e de massa."

Como se vê, há um movimento em curso já há algum tempo, estimulado, com maior ênfase, pela WWW, creio eu, ao permitir a migração dos centros culturais do mundo. A literatura hoje é transnacional de fato.

domingo, 22 de maio de 2011

FUNDAMENTAL: Chomsky debulha a manipulação dos meios

Dez formas distintas de manipulação midiática Noam Chomsky elaborou a lista das “10 Estratégias de Manipulação” através da mídia. Em seu livro “Armas Silenciosas para Guerras Tranquilas”, ele faz referência a esse escrito.

Noam Chomsky elaborou a lista das “10 Estratégias de Manipulação” através da mídia. Em seu livro “Armas Silenciosas para Guerras Tranqüilas”, ele faz referência a esse escrito em seu decálogo das “Estratégias de Manipulação”.

1 – A Estratégia da Distração.

O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração, que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças que são decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundação de contínuas distrações e de informações insignificantes.
A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir o público de interessar-se pelos conhecimentos essenciais na área da ciência, economia, psicologia, neurobiologia ou cibernética.
“Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais” (citação do texto ‘Armas Silenciosas para Guerras Tranquilas’).

2 – Criar problemas e depois oferecer soluções.

Este método também se denomina “Problema-Reação-Solução”. Cria-se um problema, uma “situação” prevista para causar certa reação no público, a fim de que seja este quem exija medidas que se deseja fazer com que aceitem. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja quem demande leis de segurança e políticas de cerceamento da liberdade.

Ou também: criar uma crise econômica para fazer com que aceitem como males necessários o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.

3 – A Estratégia da Gradualidade.

Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradualmente, com conta-gotas, por anos consecutivos. Dessa maneira as condições sócio-econômicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990.

Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego massivo, salários que já não asseguram rendas decentes, tantas mudanças que provocariam uma revolução se fossem aplicadas de uma vez só.

4 – A Estratégia de Diferir.

Outra maneira de fazer com que se aceite uma decisão impopular é a de apresentá-la como “dolorosa e necessária”, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato.

Primeiro porque o esforço não é empregado imediatamente. Logo, porque o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “tudo irá melhorar amanhã” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para se acostumar com a idéia da mudança e aceitá-la com resignação quando chegar o momento.

5 – Dirigir-se ao público como a criaturas de pouca idade.

A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discursos, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse uma criatura de pouca idade ou um deficiente mental.

Quanto mais se pretende enganar o espectador, mais se tende a adotar um tom infantilizante. Por que? “Se alguém se dirige a uma pessoa como se ela tivesse 12 anos ou menos, então, em razão da sugestão, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reação também desprovida de um sentido crítico como a de uma pessoa de 12 anos ou menos (ver ‘Armas silenciosas para guerras tranqüilas’)”.

6 – Utilizar o aspecto emocional muito mais que a reflexão.

Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto-curcuito na análise racional, e, finalmente, no sentido crítico dos indivíduos. Por outro lado, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou injetar ideias, desejos, medos e temores, compulsões, ou induzir comportamentos.

7 – Manter o público na ignorância e na mediocridade.

Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. “A qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância planejada entre as classes inferiores e as classes sociais superiores seja e permaneça impossível de ser alcançada para as classes inferiores (ver ‘Armas silenciosas para guerras tranqüilas’)”.

8 – Estimular o público a ser complacente com a mediocridade.

Promover a crença do público de que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto.

9 – Reforçar a auto-culpabilidade.

Fazer crer ao indivíduo que somente ele é culpado por sua própria desgraça devido à insuficiência de sua inteligência, de suas capacidades, ou de seus esforços. Assim, em vez de se rebelar contra o sistema econômico, o indivíduo se menospreza e se culpa, o que gera um estado depressivo, cujo um dos efeitos é a inibição da ação do indivíduo. E sem ação não há revolução!

10 – Conhecer os indivíduos melhor do que eles mesmos se conhecem.

No decurso dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência geraram uma crescente brecha entre os conhecimentos do público e aqueles que possuem e utilizam as elites dominantes.

Graças à biologia, à neurobiologia e a psicologia aplicada, o “sistema” desfrutou de um conhecimento avançado do ser humano, tanto de forma física como psicológica. O sistema conseguiu conhecer melhor o indivíduo comum do que este conhece a si mesmo. Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos, maior que o dos indivíduos sobre si mesmos.

Noam Chomsky. Filósofo, ativista, autor e analista político estadunidense. É professor emérito de Lingüística no MIT e uma das figuras mais destacadas desta ciência no século XX. Reconhecido na comunidade científica e acadêmica por seus importantes trabalhos em teoria lingüística e ciência cognitiva.

Fonte: Blog do Luis Nassif

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Se temes as estrelas

Se temes as estrelas
E o manto quente do sol
E as labaredas de luz da lua nova
E o frescor infinito do mar, no verão
E todas as cores dos peixes azuis
E todos os olhos pequeninos dos colibris

Se foges das gotas de chuva
E te abrigas sob casebres às vezes tristes
Ou sozinha ficas e choras também
Onde espreitas, pelas fendas estreitas da velha madeira,
Os olhos do mundo os assovios das palmeiras
E os volteios de borboletas
Que amas - e temes

Se achas que o sorriso no inverno fere teus lábios débeis
Se te escondes da força de olhos negros (ou azuis de um azul
Que não entendes)
Se te inquietas com tanto amor, tanta vida,
Tantos rodopios suaves das meninas em flor,
Com os gracejos-dentes-de-cana-açúcar dos meninos...

Precisas conhecer a teia
Que vai enredando a felicidade
Em cada um de nós!

ii.

O sorriso da alma está no olhar o céu
E perceber a dança de pássaros
E, mesmo sem estes aventureiros de árvores e anis,
Imaginá-los em loopings e bandos de meninos-pássaros
E moças-pássaras

Ou o sorriso vem na brisa que nos toca o peito
E nos enleva os pensamentos de nós-como-somos-mesmo:
Doces criaturas de Deus!

iii.

No livro que não leste ainda
No quadro que não viste ainda
E nas corridas de animais estranhos
E nas páginas rotas e antigas de alfarrábios
Histórias de amores medievais, de lutas por reinos e donzelas
Em belas películas de Wenders, onde anjos são como pessoas
São como anjos as pessoas
E um outro querubim amou uma mulher trapezista

Em jarros árabes de flores sírias
Em historietas antigas de E. R. Burroughs
Em quadrinhos westerns de Berardi ­ conheces o Giancarlo?
Ele criou o fabuloso Ken Parker:
Tão suntuosamente desenhado pelo Milazzo
(Que o pensou um ator americano)
Ah! a história de Lilith, a cadelinha que salvou o Ken da morte no gelo

Em tudo há a vida, amiga!
Vendo-lendo as crianças no dorso da Vaca Voadora
(Como os li, e também ao Soprinho, mágico, estranhamente)
Folheava as páginas tenras - folhas-vivas!
Enquanto chovia ao meu lado, e eu comia beiju

E o mundo era assim! Bom e belo

iv.

Se temes as estrelas
E o manto quente do sol
Retira-te por cem dias do claustro da vida
Que te rodeia
E volta a sonhar
Ao lado de passarinhos
Peixes
Nuvens
E assovia e reza e canta baixinho
Chamando a chuva
Para que, agasalhada, possas dormir, sozinha,
Sonhar, sorrindo, enlevada com Deus presente,
E acordar, já de noitinha, com um livro de belos poemas da Cecília
Ao teu lado, te fazendo companhia, em vigília por teus sonhos
Agacha-te, cheira as páginas mornas, acaricia-as
Depois senta-te à mesa e lê os murmúrios dos versos como corações expostos
E, se tens um violão, vai ao alpendre, mira a Grande Lua, e canta
Entoa loas, litanias e velhas canções

Se foges das gotas de chuva
E te abrigas sob casebres às vezes tristes
Canta, dança!
Tens a clareza da paz alquímica ao teu alcance
Que Deus, num êxtase divino,
Após oblações feitas com o auxílio de hordas de serafins
Soprou sobre os mundos vilas e quintais
A paz veio desse deus-sopro!

(2001, aproximadamente)

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Salmo 94 e opressão social

Tuitei hoje os trechos que seguem. Constam de notas de rodapé, às fls. 774 e 775, de minha Bíblia Sagrada – Edição Pastoral (1ª ed.), referenciando o Salmo 94.

O texto bíblico foi traduzido, ineditamente, do hebraico, pelos padres Ivo Storniolo e Euclides Martins Balancin. "Imprimatur": 21.12.89.

“Os opressores constroem uma estrutura social que, para defender seus privilégios e interesses, acaba marginalizando o povo na miséria e escravidão. O cúmulo da soberba é cortar qualquer possibilidade de justiça, chegando a negar que Deus se importa com a situação.”

“Deus age na história para realizar a justiça. Isso, porém, não dispensa a luta do povo; ao contrario, é através dele que Deus derrota a injustiça. Embora as estruturas injustas continuem, elas estão fadadas ao fracasso, pois Deus está aliado com as vítimas, para derrotar os opressores.”

sábado, 15 de janeiro de 2011

Reveillon em Pirenópolis (2008)

Montes, árvores do cerrado.
Todos os nomes de caules retorcidos; lixeirinha, orelha-de-negro, umburuçu,
corda-de-viola;
O verde explode, belo!
Cachoeiras, águas serpenteiam arco-íris.

Primeiro dia do ano em Pirenópolis e a lembrança
de Jorge Luis Borges em São Paulo.

Stephen Hawking e a música que colore a tarde.

Música eletrônica entreluzindo 2008.

A morenaluzbelavozdeusa: Maria Rita cantando Noel!

A promessa de ler os dois livros do Raduan:
Na primeira hora do ano Lavoura Arcaica e Um Copo de Cólera brincaram no trapézio da inquieta lembrança.

Ano que vem de novo, sim.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Poesia mundial selecionada

Em dezembro de 2007, Quase hai publicou uma ruma de poemas: uma pretensa seleção do melhor da poesia mundial. Depois, em 2009 e um pouco em 2010, continuou a série. Leia aqui.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Dust in the Wind



Scorpions
(Kerry Livgren)

I close my eyes
Only for a moment,
And the moment's gone.
All my dreams,
Pass before my eyes, a curiousity.
Dust in the wind,
All they are is dust in the wind.
Same old song,
Just a drop of water in an endless sea.
All we do
Crumbles to the ground,
Though we refuse to see.
Dust in the wind,
All we are is dust in the wind.
Now, don't hang on,
Nothing lasts forever
But the earth and sky.
It slips away,
And all your money
Won't another minute buy.
Dust in the wind,
All we are is dust in the wind.
Dust in the wind,
All we are is dust in the wind.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Auroras

há magia no brotar da flor, no cerrado, no oeste da bahia?há beleza na parreira que trepa auroras?
há mistérios na loira que nada caudaloso rio, aos 19?

O furor da vida

assassinato de si:
navegar, tuitar, ficar no emessene.
a vida explode no espelho selvagem do atlântico!
aves azuis acusam o furor da vida!

Poesia de cego

"O teu amor é uma mentira
Que a minha vaidade quer
E o meu, poesia de cego
Você não pode ver"

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

A ficção contemporânea



Luciana Villas-Boas, uma das pessoas que melhor conhece o mercado nacional e internacional de literatura, escreveu há alguns dias no Estadão uma reflexão extremamente lúcida sobre a ficção contemporânea.

"Quanto à grande literatura, houve, nos países centrais, um retorno espetacular da narrativa, a valorização, evidente nas premiações e na recepção crítica, para não falar de vendas, do enredo inteligente e bem armado para dizer algo relevante sobre a condição humana ou a História, por meio de personagens densos e multifacetados e um trabalho de linguagem de quem domina seu idioma e consegue construir uma voz autoral original e inconfundível. No Brasil, engatinhamos, ainda esmagados pelas desconstruções joycianas do século passado, na maioria das vezes sem a devida bagagem literária e controle do idioma. Mas surgiram prêmios literários de repercussão e a condição do escritor é muito mais apreciada do que no século passado. Não é fácil, mas é possível ser otimista e acreditar que nos próximos 10 ou 15 anos começaremos a construir uma grande literatura nacional, com presença e visibilidade até mesmo na Europa e nos Estados Unidos".

In "Caderno 2", O Estado de São Paulo, 26 de dezembro de 2010

(valendo-me de @miguelsanchesnt)

Versos no twitter

(como se vê, a poesia irrompe em tardes estranhas. tuitar é uma desculpa para o poeta descobrir-se outro!) "q caiam os antros, as igrejas!"
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II) aos 55, ela o espera, após o banho com alfazema, sentada no alpendre da casinha humilde. cantarola a canção que o embevecia, aos 20.
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I) aos 70, ele caminha meia dúzia de léguas, em busca da flor q depositará nos cabelos mágicos da amada. com desvelo, protegerá a orquídea.
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há magia no brotar da flor, no cerrado, no oeste da bahia? há beleza na parreira que trepa auroras? há mistérios na loira que nada, aos 16?
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II) os passos dela, lerdos. o sorriso dele, ao vê-la, curva, avançar, lentamente. os olhos tímidos de ambos se encontram. o atlântico, ali.
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I) agora, em joão pessoa, pb, inda um casal de anciãos volta do mercado de artesanato, para onde rumaram, após o almoço, às 11 e meia.
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agora tb, no alaska ou no topo da groelândia, seres do gelo passeiam, levitam acima da alvura eterna, incansável. se ali 1 flor rebentasse:
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II) ele, lesto, na palidez inquieta dos 17.ela tempestuosa irradiação alquímica, no furor mágico dos 18!
»

I) agora, nalguma vila do planeta, dois adolescentes se conhecem, no limiar do pôr-do-sol.
»

assassinato de si: navegar, tuitar, ficar no emessene. a vida explode no espelho selvagem do atlântico! aves azuis acusam o furor da vida!

domingo, 5 de dezembro de 2010

Crítica e profecia

Postado na comunidade Mikhail Bakhtin, no Orkut, da qual sou coordenador:

Fórum para discussão de "Crítica e profecia - A filosofia da religião em Dostoiévski", de Luiz Felipe Pondé (Ed. 34, 2003).

Nota: há interessante capítulo sobre a polifonia em FMD (ou Dostoiévski, ou, simplesmente, D.); seguem excertos desse capítulo:

"A base do ceticismo, conforme a obra de Sexto Empírico sobre PIrro, é a produção simétrica de um argumento de mesmo valor e oposto a outro, produzido anteriormente, com objetivo de destruí-lo. Bakhtin aponta para o fato de que a raiz desse ceticismo está na sofística, nos diálogos socráticos, ou seja, que Sócrates ou Platão já haviam tentado aproximar-se da ideia de vozes equipolentes, muito antes de D., mas apenas este conseguiu de fato realizar essa poética de forma tão bem-feita."

.........

"Nessa medida, D. não é o so um autor que fala da mística ortodoxa: ele é um autor que está inserido no seculo XIX (século da dúvida religiosa), bem como na ideia de que o ser humano é absolutamente polifônico, contraditório, controverso. Essa controvérsia, constante, essa contradição, essa polifonia, essa incapacidade de estabelecer uma síntese, representam a Providencia divina."

.............

"Para D., a linguagem que se pensa como objetivamente é absolutamente miserável. Então, na realidade, a prática linguista que se poderia ser considerada menos miseravel é aquela na qual o indivíduo fale e deixa o outro falar; nunca faz do outro o objeto da sua fala."

................

"Assim, não é que D. não fale da perspectiva de Deus ou que ele não possa falar sobre Deus, apenas que, quando a linguagem fala, o faz polifonicamente."

Polifonia

Tópico criado na comunidade Mikhail Bakhtin, de que sou organizador, no Orkut. O objetivo é discutir o conceito de polifonia (ou equipolência) em Dostoiévski: http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=59146161

domingo, 31 de outubro de 2010

O Grande Inquisidor (de Dostoievski)

O grande inquisidor

Trecho do romance Os irmãos Karamazov, de Fiodor Dostoievski

— É preciso, sob o ponto de vista literário, que o meu poema tenha um preâmbulo. A ação passa-se no século XVI; bem sabes que era costume, naquela época, fazer intervir nos poemas os poderes celestes. Não falo de Dante. Na França, os "clercs de la basoche" e os monges davam representações em que punham em cena Nossa Senhora, os anjos, os santos, Cristo e Deus. Eram espectáculos ingênuos. Na Nossa Senhora de Paris, de Vítor Hugo, o povo é convidado, no tempo de Luís XI, em Paris, e em honra do nascimento do Delfim, para uma representação edificante e gratuita: O Bom Juízo da Sagrada e Graciosa Virgem Maria. Neste mistério aparece a própria Virgem a pronunciar o seu "bom Juízo". No nosso país, em Moscow, antes de Pedro, o Grande, davam-se, de tempos a tempos, representações deste genêro, inspiradas sobretudo no Velho Testamento. Além disso, circulava uma grande quantidade de narrativas e de poemas em que figuravam, segundo as necessidades, os santos, os anjos, o exército celeste. Nos mosteiros traduziam-se e copiavam-se estes poemas, e compunham-se mesmo outros novos, tudo sob a dominação dos Tártaros. Existe, por exemplo, um pequeno poema, traduzido sem duvida do grego: A Virgem no Inferno com quadros duma audácia dantesca: a Virgem visita o Inferno, guiada pelo arcanjo S. Miguel, e vê os condenados e os seus tormentos; entre outros, há uma categoria muito interessante de pecadores: os do lago de fogo; mergulham no lago e nunca mais aparecem: são aqueles "de que até Deus se esquece" – expressão esta duma profundeza e duma energia notável. A Virgem, chorando, cai de joelhos diante do trono de Deus e pede o perdão de todos os pecadores que viu no Inferno, sem distinção; o Seu diálogo com Deus é dum interesse extraordinário; suplica, insiste e, quando Deus Lhe mostra os pés e as mãos do Filho furados pelos pregos e Lhe pergunta: "Como poderia eu perdoar aos seus verdugos?" – ordena a todos os santos, a todos os mártires, a todos os anjos que se ponham de joelhos como Ela e implorem a Deus que perdoe a todos os pecadores, sem distinção. Obtém, por fim, que cessem os tormentos, todos os anos, desde Sexta-Feira Santa ao Pentecostes, e os condenados, do fundo do Inferno, agradecem a Deus e gritam: "Senhor, a Tua sentença é justa!". Pois bem: o meu poeminha teria sido deste gênero, se o tivesse escrito nessa época. Deus aparece; não diz nada; só passa. Rodaram quinze séculos, depois que prometeu voltar ao Seu reino, depois que o Seu profeta escreveu: "Cedo voltarei; quanto ao dia e à hora, o Filho mesmo não os conhece; só o sabe meu Pai que está nos Céus", segundo as próprias palavras que pronunciou na Terra. E a humanidade espera-O com a mesma fé que outrora, fé mais ardente ainda, porque já quinze séculos passaram depois que o Céu deixou de dar penhores aos homens: "Crê no que te diz o coração; os Céus não dão penhores". Leia íntegra aqui.

domingo, 10 de outubro de 2010

O fundamentalismo nas eleições


Janio de Freitas

Na porta de entrada

Em uma República presente no século 21, a eleição de seu presidente reduz-se ao aborto, se crime ou não

ENTRE PRÉ-SAL, Brasil no jogo político planetário, células tronco, construção de foguetes, submarinos nucleares, feitos esplêndidos e silenciosos de laboratórios científicos, liderança mundial em exportação de vários alimentos -enfim uma República presente no século 21 sob tantos aspectos, de repente a eleição de seu presidente reduz-se ao aborto, se crime ou não. Os candidatos tremem, docilizam-se, mentem. Os bispos e pastores, no velho e no novo púlpito da tv, troam passando-se pela voz divina. Um país com meio milênio de atraso.

O caminho para a conquista do eleitor não são os projetos, não são as ideias, não são os circunstantes técnicos e políticos, não é o diagnóstico do presente e a visão de futuro. É a benção. Proveniente de sedes de bispados e cardinalatos, dos palcos e templos onde os que fazem riqueza inventando seitas recolhem os 10% "de dízimo". É a benção não adotada, mas em versão própria, pelos meios de comunicação que se valham desse atraso para estimular eleitores em uma ou ou em outra direção.

Se o eleitor se convence da insinceridade dos candidatos, testemunha que é da submissão oportunista em quem deveria demonstrar inteireza, ignoro a existência de argumento respeitável para convencê-lo do contrário. Ignoro e duvido que haja.
A eleição dita republicana leva o Brasil ao portal do mundo dos fundamentalismos, essa patologia cujos fins e formas variados são idênticos nas marcas deixadas na história: sempre guerras, mortes impiedosas, sofrimento de inocentes em massa, dominação, e atraso -tantas vezes irreparável no possível caminho do crescimento humano.

Na essência, o fundamentalismo que aqui se torna eleitoral tem a ver com o papel subalterno que as religiões médio-orientais e ocidentais atribuem à mulher. Esse ser que nem na arca de Noé teve um lugar, não teve um lugar entre apóstolos e não foi convidada à última ceia. Nasce com as impurezas que a fazem incapaz para o sacerdócio e, ainda hoje, deve esconder-se do mundo sob véus e burcas e hábitos, quando não é apedrejada pelos castigos que isentam os homens. Nesse tratamento aos considerados filhos de Deus, o fundamentalismo encontra no aborto o crime de homicídio na promessa de pessoa que é o feto. A vida acima de tudo. Não, porém, a vida da mulher que não quis ou nem pode ter o encargo de um filho e, entregue à solução única do aborto precário, perde a vida aos milhares e milhões. É vida de mulher, só.

Mas o que os candidatos à Presidência disputam é a sua possibilidade de influir, decisivamente em inúmeros casos, no futuro de quase 200 milhões de pessoas. Adeptos de religião ou não. E a maioria dos adeptos, só para fins de declaração.

Fonte: FSP, 10.10.10