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O amor, na serra*

Era princípio de manhã. Entre lua e sol o mundo. A maré baixa. Pássaros raros. O vento leve. Então, suspira ela, evadindo-se de eventual inoportuno enfado: “Como ser triste com tanta explosão de luz, cor e mistério, Deus meu!?” A noite, após o caudaloso amor feito, havia sido branda. Nem minúsculo fio da inquietação que a toma na cidade. Sim, macia e fácil a noite. A clara luz do dia agora a banhar o corpo dele, que dorme. Salta da cama e percorre a varanda onde crisântemos teimam em manter olhos-pétalas abertos — e as violetas despontam! Pensa lerdamente nas múltiplas visões, nos traços malriscados da madrugada epíloga, nos desenhos acima do mar e dentro dele, principalmente. Vira, da janela, estrelas e o hálito do oceano cingindo-as. Suspira, molemente, e caminha até a praia. Gostava de ficar horas sorvendo o movimento das ondas, o fluxo e o refluxo, o serpenteio delas. A areia, o mar meio verde-escuro, meio negroalvo. *** De volta à casa. Os pássaros, mirados do alpendre, são borbol...

Dona Nenen

Dona Nenen do Cravinho luta contra o sono que vem com a tarde macia. Quer é pensar no caixão, na carneira, na mortalha completa, nos botes de vela, que já são em número de vinte; gosta de matutar sobre os preparativos para o grande dia. A fronte retesa, nessas horas. Dará conta de cuidar de tudo até o último momento? E quando chegar a malfadada hora? Quem a banhará? Não esquecerá de perfumá-la com alfazema? Será que a penteará com carinho, sem quebrar os cabelos delicados? A cama estará asseada? Terão cuidado de não deixar homem no quarto? Meu Deus! Vai é deixar tudo pronto, em ponto de bala — como diria o bom Gustavo. Melhor se prevenir. Afobação em sentinela pode ser ruim. E o café para servir às amigas no velório? Quem o coará? Pode convidar Finfilóquia, ou a sobrinha que mora em Wanderley, para cuidar do café e fazer sala às visitas — as últimas, e por isso mesmo merecerão muita atenção. É, assim será, ou uma ou outra. Contudo, comprará mais um vidrinho de alfazema, para o caso de ...

Zoada

Tento escrever, mas enorme barulho ecoa pela casa, pela rua, por toda parte. Acordo — já com a zoada. Nem me lembro se por causa dela. Sonhava, é certo. Lavo o rosto — e o barulho. O vidro traz a ressonância do ruído que não sei de onde vem. Minha casa fica no fim de uma das ruas largas do condomínio, pouco transitadas. Raras carroças e bicicletas é que vêm dar ali, de quando em quando. Vou até a varanda e espreito o aparentemente calmo mundo. As folhas da árvore balançam com o vento morníssimo. O sol é bom, aquece-me o rosto, anima-me a sorrir. O café, os ruídos. As louças começam a trepidar. O pão esfarela sozinho. O leite e a nata dançam. Levanto-me. Deixo a mesa, busco o romance que leio. Não acho. Começo a considerar que a ausência do silêncio poderá, decerto, quebrar a paz que sempre polira o tempo por ali. A vida sossegada que levo periga? Procuro em seguida o tomo pesado de Pedro Nava. Contudo, esqueço-me dele, e, dando meia-volta, sento-me no sofá macio. Agora, a caminhada, os...

Mais da Casa de Letras: Riomar e Almânia

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No dia 25/05/2005, às 19:28, postei este estranho conto, até hoje inconcluso, no extinto blogue Casa de Letras : Riomar e Almânia - CONTO em partes - Parte I Há um casal septuagenário... a. Nesta tarde aluá tapioca canoas milharal pássaros periquitos manga o rio chuva histórias à meia-noite conversa no alpendre Riomar e Almânia mão-em-mão nada mais que mão-em-mão e o sorriso largo de poder ver o sorriso da companheira em lindo vestido na tarde boa do sábado novo, após o café que o marido plantara, regara, colhera, guardara, torrara, pilara, peneirara e, por fim, fervera e coara – ofertando-lhe, em xícara nova comprada na Vila, com pires e tudo. b. Meninos Riomar e Almânia Ele menino no princípio do século. Ela menina como uma flor como um algodão como uma libélula como uma índia fosse ela. Ele menino teve o lume a visão: dele com ela, juntos, velhos, rindo, livres, felizes. Agora Almânia sabe: criança a gente é toda a vida: dentro da gente: o mesmo contentamento que tinha quando caía n...

Machado de Assis e Fellini

Tinha luz própria. Explorava sozinha a calmaria e a zoada alheias. Em meus sonhos, estávamos no Cine Academia, em Brasília, inebriados de Kurosawa e Kiarostami, ou no Jardim Botânico, explorando pétalas exóticas. Que alegria ver os joões-de-barro serelepes, após a chuva nova. Eita! cheirinho bom de chuva, e tome sorriso e dentes alvos de Anantha, e o perfume de sua pele, e o olhar penetrante, meigo, forte, perigoso! Jamais compreendi como Machado pôde criar para Bentinho uma Capitu tão dissimulada, a ponto de os cabelos dela, ele de costas, o apunhalarem, ela querendo tocar-lhe as mãos, mas Machado não nos diz da vontade dela, e Bentinho pouco depois ganha o beijo tão esperado por nós, que, ávidos, avançávamos cada linha, cada parágrafo, cada folha, ansiosos pelo encontro de Bentinho com Capitu. Isso Anantha disse-me ter pressentido: a mágica do ósculo, a poesia do doce encontro diante do velho espelho que tudo testemunhou. Fellini, infelizmente, não gravou o episódio; poderia exibir a...

TEMPESTADE POÉTICA. Abra a boca e feche os olhos

silvana guimarães Axiome I: Tout ce qui est, est en soi ou en autre chose. Fala a verdade. Tirei a sorte grande. Podia ter ficado na roça e morrer sem futuro, casada com um homem pobre-porém-honesto uma penca de filhos uma casinha caiada com flores no jardim samambaias na varanda horta no quintal a vida sem inesperados. Mas não. Estou vencendo na cidade grande. Tirei a sorte grande, vim parar aqui, no doce lar da minha patroa. Não existe no mundo alguém melhor do que ela. Minha mãe. Como se fosse. Mandou tratar dos meus dentes, dos meus cabelos, me deu roupas e sapatos novos, xampu, desodorante e me ensinou a usar absorventes higiênicos. Depois que eu estraguei três guardanapos da sua toalha de mesa mais bonita. Ela me emprestou alguns livros, me botou na escola, me mostrou como olhar as palavras no dicionário, me ensinou a conversar. Já sei falar problema. Já sei conjugar muitos verbos. Nós fomos. Nós vamos. Fui promovida de babá a cozinheira. Já sei dizer o almoço está servido. Já ...