domingo, 29 de março de 2009

Adriana e o mar


Adriana e o mar
sol nenhum.

O pesado barulho das ondas
a quebra na praia.

Nada de sol.
Só a lerda vontade de estar na areia úmida do chuvisco.

A noite: pingos na lagoa e nas amendoeiras.

Seu corpo livre, íntimo já da terra, da grama, do borbulhar da água.

Gonzaguinha e a Operação Castelo de Areia, da PF


Não Dá Mais Pra Segurar (Explode Coração)

Chega de tentar
Dissimular
E disfarçar
E esconder
O que não dá mais pra ocultar
E eu não quero mais calar
Já que o brilho desse olhar
Foi traidor e entregou
O que você tentou conter
O que você não quis desabafar
Chega de temer
Chorar
Sofrer
Sorrir
Se dar
E se perder
E se achar
E tudo aquilo que é viver
Eu quero mais é me abrir
E que essa vida entre
Assim como se fosse o sol
Desvirginando a madrugada
Quero sentir a dor dessa manhã
Nascendo
Rompendo
Tomando
Rasgando meu corpo
E então
Eu
Chorando, gostando
Sofrendo
Adorando
Gritando
Feito louca alucinada e criança
Eu quero meu amor se derramando
Não dá mais pra segurar
Explode coração

Para bom entendedor...

sexta-feira, 27 de março de 2009

Levantou os olhos e viu Adriana


Os canários, cantando, explodindo flores no chão úmido.

Visita à caverna onde costumava ler, desde os doze anos.
E onde conhecera, aos dezesseis, os suspiros roucos, profundos e incandescentes.

Uma cadela grávida ganiu, perto.
Levantou os olhos e viu Adriana, esguia, próxima, ali.

Olvide números


olvide números
leia nuvens plantas
bichos
pios de aves
e vôos de borboletas

sinta canaviais
pardais
gorjeios de joões-de-barro no ninho

pressinta a chuva
invente gravetos molhados
olor de grama e capim

seja o silencio
da relva e da pétala
flor do cerrado

o galho a balançar
o bambuzal
as estrepolias dos gaviões-de-penacho

vislumbrar
por que o concreto da cidade nova
se há ao lado um éden
um riacho
laranjais
e o cântico do silêncio e do vento
o sibilante sorriso da brisa?


Aqui a cidade nova é Águas Claras, em Brasília. Centenas de edifícios ganham vida, da noite para o dia. Ao lado, um parque com imensa floresta, riachos, pássaros e riquíssima flora do cerrado.

Comentários


Machadianamente falando, já repararam - a meia dúzia de leitores que me lê, se sorte tiver eu - que não peço que comentem nada? Pois é. Mas que seria bom um ou outro comentário, seria sim.

A paz


Se se trata de Gil, não precisa nem ouvir a música, basta lembrar da letra, cantarolá-la em pensamento que tudo fica bem.

A paz invadiu o meu coração
De repente, me encheu de paz
Como se o vento de um tufão
Arrancasse meus pés do chão
Onde eu já não me enterro mais
.

Dona Nenen


Dona Nenen do Cravinho luta contra o sono que vem com a tarde macia. Quer é pensar no caixão, na carneira, na mortalha completa, nos botes de vela, que já são em número de vinte; gosta de matutar sobre os preparativos para o grande dia. A fronte retesa, nessas horas. Dará conta de cuidar de tudo até o último momento? E quando chegar a malfadada hora? Quem a banhará? Não esquecerá de perfumá-la com alfazema? Será que a penteará com carinho, sem quebrar os cabelos delicados? A cama estará asseada? Terão cuidado de não deixar homem no quarto? Meu Deus! Vai é deixar tudo pronto, em ponto de bala — como diria o bom Gustavo. Melhor se prevenir. Afobação em sentinela pode ser ruim. E o café para servir às amigas no velório? Quem o coará? Pode convidar Finfilóquia, ou a sobrinha que mora em Wanderley, para cuidar do café e fazer sala às visitas — as últimas, e por isso mesmo merecerão muita atenção. É, assim será, ou uma ou outra. Contudo, comprará mais um vidrinho de alfazema, para o caso de um não ser suficiente para a ablução derradeira.

Trecho de conto que escrevi aos 16 e reescrevi há coisa de meia dúzia de anos.
Fala de uma estranha senhora, que morava na Vila Brasil, em Barreiras, no Oeste da Bahia. Ela mantinha em sua casa um caixão, reluzente, bem-cuidado. E disso não fazia segredo para ninguém. Fui até lá entrevistá-la para o jornal do amigo Kinkão.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Dá-lhe De Sanctis!


O valoroso Juiz Federal Fausto De Sanctis desferiu um petardo contundente, em um dos trechos da decisão na operação Castelo de Areia:

“Essa palavras são necessárias num país em que o medo tomou conta de tudo e de todos, quer porque as pessoas se envergonham de serem honestas, quer porque têm acesso a notícias de parte de setores da imprensa, muitas vezes orquestradas apenas para consagrar interesses exclusivamente privados."

sábado, 14 de março de 2009

A aula de Todorov


Em A literatura em perigo (Difel), o búlgaro-francês Tzvetan Todorov faz uma reivindicação simples: é preciso ensinar mais a literatura e menos os estudos literários. Quer dizer, os professores precisam estar mais atentos aos sentidos da obra e menos às estruturas literárias, digamos, internas. Analisando a situação na França, Todorov lamenta o atual estado do ensino da literatura nas escolas, que valoriza concepções formalistas. Ele prega uma volta ao "conteúdo". Vindo de um dos principais artífices do estruturalismo, é de se aplaudir. No Brasil, salvo engano, precisaríamos de uma boa enxurrada teórica para diminuir a ânsia pela "mensagem".

O ensaio de Todorov é de uma clareza estonteante. Logo no início, conta a história de como começou a se interessar pela forma. Na Bulgária comunista, a ideologia oficial se impunha. "Como falar de literatura sem ter de me curvar às exigências da ideologia dominante?" Decidiu tratar de "objetos sem cerne ideológico". Já na França, "meu amor pela literatura não se via mais limitado à educação recebida em meu país totalitário". Todorov se abriu para novas abordagens da literatura, percebendo que ela "não nasce no vazio".

O crítico traça um histórico da produção e da percepção da literatura e das artes em geral – de seu papel utilitário à autonomia, com o surgimento do valor estético. Seu principal objetivo é mostrar a necessidade de trazer a literatura de volta ao "mundo no qual ela vive". Só assim, acredita Todorov, ela tem alguma chance de interessar às pessoas, de continuar a ser lida, de permanecer no imaginário, de viver por muito tempo. Os métodos são necessários, mas sozinhos não dizem nada, não significam nada.

A literatura está em perigo quando condicionada pedagogicamente a "uma visão formalista, ou niilista, ou solipsista". Não há por que transformar o estudante em especialista em análise literária. A literatura lhe serve como meio para se tornar um "conhecedor do ser humano", diz Todorov, que diagnostica um momento e se dispõe à utopia.

No prefácio, Caio Meira lembra o desprestígio da literatura entre os jovens, em relação, por exemplo, ao cinema e à música. Na orelha, Jorge Coli recorda o filme Fahrenheit 451, em que o francês François Truffaut "expõe o amor aos livros e reclama o direito ao prazer da leitura". Todorov, contudo, passa por cima do mundo midiático, como se ele não existisse ou não tivesse a relevância cultural que tem. A literatura vive nesse mundo e, muito por conta dele, se vê ameaçada. Ignorar os mass media na análise do papel da literatura hoje é falha imperdoável, uma volta à questionada autonomia e uma maneira de enxergar apenas uma parte do problema. O perigo está na escola, mas também alhures, mais próximo e íntimo do que imaginamos e refletimos.


Fonte: Pensar, Correio Braziliense, 14.03.2009

domingo, 8 de março de 2009

Margarida Maria Alves



No Dia Internacional de todas as Mulheres, este blog enaltece Margarida Maria Alves, líder sindical rural da Paraíba, brutalmente assassinada por latifundiários grileiros, em 1983. Até hoje os assassinos não foram punidos.

"Prefiro morrer na luta do que morrer de fome."

Nasceu em 5 de agosto de 1933, na cidade de Alagoa Grande, na Paraíba. Em 1973 foi eleita presidente do Sindicato de Alagoa Grande, primeira mulher a ocupar um cargo deste no Estado. Durante 12 anos à frente do sindicato, foram movidas mais de 600 ações trabalhistas contra usineiros e senhores de engenho da região da Paraíba. Foi uma das fundadoras do Centro de Educação e Cultura do Trabalhador Rural, cuja finalidade é, até hoje, contribuir no processo de construção de um modelo de desenvolvimento rural e urbano sustentável, a partir do fortalecimento da agricultura familiar. Margarida lutava pela defesa dos direitos do homem do campo, pelo décimo terceiro salário, o registro em carteira, a jornada de oito horas e as férias obrigatórias. Com o surgimento do Plano Nacional de Reforma Agrária, os latifundiários intensificaram a violência no campo. No dia 12 de agosto de 1983, aos 50 anos, e na frente do filho e do marido, Margarida foi assassinada na porta de sua casa com um tiro de espingarda calibre 12 no rosto. O tiro foi disparado por um homem encapuzado que fugiu em um Opala vermelho onde outras duas pessoas o esperavam. Na época de sua morte, Margarida movia 72 ações trabalhistas contra fazendeiros. Os mandantes faziam parte do “Grupo da Várzea”, composto por 60 fazendeiros, 3 deputados e 50 prefeitos. O delegado da região identifica o criminoso mas não consegue prendê-lo. Entre os autores do crime estavam o soldado da PM Betaneo Carneiro dos Santos, os irmãos e pistoleiros Amauri José do Rego e Amaro José do Rego, e Biu Genésio, motorista do veículo utilizado no crime e morto em janeiro de 1986 como “queima de arquivo”. Agnaldo Veloso Borges, José Buarque de Gusmão e Antônio Carlos Coutinho Regis também estavam envolvidos em conflitos na região. Em 1984 foi lançado o filme “Margarida Sempreviva” pelo Centro de Educação e Cultura do Trabalhador Rural, CENTRU, e PL Produções Visuais Ltda, de Recife. Em julho de 1988 o pecuarista Antônio Carlos Coutinho Reis foi absolvido da acusação durante julgamento. Um novo inquérito foi instaurado, mas entre indas e vindas da Justiça, os julgamentos foram sendo adiados sucessivamente. Durante esses anos, alguns dos acusados morreram, outros foram presos por outros crimes e no caso de Margarida, a impunidade foi mais forte. Mas a sua luta continua sendo referência e o dia 12 de agosto, dia em que foi assassinada, se tornou o “Dia Nacional de Luta contra a Violência no Campo e pela Reforma Agrária”.

Fonte da biografia: Comissão Pastoral da Terra (CPT)

sábado, 7 de março de 2009

Baudelaire


Na fila de leitura: Pequenos Poemas em Prosa, de Baudelaire.

Acabei de ler dois.

Cada qual com sua quimera lembra um pouco Metamorfose, de Kafka.

Cefaleia e leitura de Dostoievski


Talvez parte de algumas patologias (cefaleia, por exemplo), venham de tensionamento entre a obrigação, o dever, o trabalho necessário, e a urgência de fruir uma atividade prazerosa (a leitura de um romance por exemplo).

O embate entre o dever e o prazer gera a tensão. E dele, nasce a tal patologia.

Nada de novo, até aqui.

O fato é que, lendo o quinto volume da megabiografia de Dostoiévski, de Joseph Frank, Dostoiévski: O Manto do Profeta, 1871-1881, lembro-me a todo tempo dos códigos e da doutrina civilista e registral, à espera de leitura. Eis a tensão presente.

Mas o sabor da leitura e o espírito que visita a Rússia czarista (no esforço de Frank de escanear o panorama sócio-cultural em que viveu o autor de O Idiota) subvertem qualquer crítica que eu faça a mim mesmo.

Certo que os amigos concursandos estão tendo relativo ou total sucesso. E o sistema, com a posse de muitos, oxigena-se visivelmente (uma revolução para uns; uma bobagem, para outros, néscios, que desconhecem o notariado, daqui e de outros países). Tudo bem. Mas cada um estabelece suas prioridades como quer; e, a partir dessa premissa, deve assumir as consequências da decisão tomada.

Voltarei ao tema. Por ora, fico neste ponto.

publicado também no blog Cara Registral e Notarial

PENSAR. A vitóra do silêncio


A proibição da venda do livro sobre Guimarães Rosa, escrito por Alaor Barbosa, representa uma aberração, ainda mais por envolver o autor de uma obra plena de liberdade



Ricardo Lísias

Especial para o Correio

De vez em quando, surge a notícia de que um livro foi retirado de circulação no Brasil por ordem judicial. Recentemente, o caso mais famoso é o da biografia Roberto Carlos em detalhes, do historiador Paulo César de Araújo. Menos discutido, mas igualmente grave, é a recolha de Sinfonia Minas Gerais: a vida e a literatura de João Guimarães Rosa, estudo que o escritor brasiliense Alaor Barbosa, que vem de se destacar no concorridíssimo Prêmio Leya, publicou em 2007 pela Editora LGE. Em um processo movido pelos herdeiros do autor de Sagarana, o livro de Barbosa foi recolhido por decisão liminar. Logo o imbróglio entrará em fase de julgamento.

Parece espantoso que uma argumentação tão frágil como a que defende os herdeiros de Guimarães Rosa tenha obtido uma vitória, mesmo apenas em decisão liminar. Alega-se, por exemplo, que Barbosa escreveu o livro com intenções comerciais. Será que a reivindicação é que o volume não seja vendido? Além disso, as chances de um livro como esse tornar-se um best-seller são nulas. Por fim, tal argumento pode simplesmente ser revertido. Não é o caso, naturalmente, mas tirar esse livro de circulação talvez também pudesse ser um ato de natureza comercial. Assim, o similar redigido por uma das herdeiras não encontraria concorrência. Não deve ser essa a intenção do processo, mas meu raciocínio é meramente lógico. Se a justiça aceitar, abrirá uma jurisprudência perigosa e pouco afeita ao debate e à circulação das ideias.
Há ainda uma controvérsia sobre possíveis equívocos cometidos por Barbosa no texto, manifestamente na contracapa. Questões como essa, porém, parecem-me mais civilizadamente discutidas no âmbito do embate intelectual. Por que, então, não escrever um texto crítico sobre Sinfonia Minas Gerais, listando todos os possíveis erros do livro? É assim que um país amadurece, e não levando questões de crítica literária para os tribunais.

Falta ainda discutir um detalhe fundamental: o direito à história. Todo povo precisa ser livre o suficiente para, por meio do franco debate, construir inúmeras linguagens sobre o seu passado, o seu acervo artístico e simbólico e as suas tradições. Aqui entramos numa questão decisiva: a estatura de João Guimarães Rosa. Um artista desse quilate não pode ficar à mercê de caprichos de qualquer ordem e muito menos dar ensejo a filigranas jurídicas. Ao contrário, a obra de Guimarães Rosa, um patrimônio cultural da humanidade, merece ser lida, discutida, esquadrinhada por todos os lados, debatida, citada e continuamente confrontada. Pensar que um trabalho dessa estatura precisa de guardião é no mínimo subestimá-lo.

O processo contra Alaor Barbosa, assim, prejudica uma nação carente de bens culturais de alta extração. Se a justiça proíbe o franco debate de ideias sobre o autor de Grande sertão: Veredas, teremos que diminuir a voltagem das discussões, o que tornará nosso país ainda mais atrasado.

Cerne da ficção

Lembro ainda que Guimarães Rosa sempre fez da liberdade um de seus principais temas. Em anos em que os direitos civis ainda engatinhavam, sua obra já tratava de questões que apenas hoje são um pouco mais abertamente discutidas. Tal processo, portanto, é contrário ao cerne da ficção do escritor que os herdeiros, inadvertidamente, pensam estar defendendo.

Por fim, há ainda um vexame envolvendo toda essa questão: a participação da editora Nova Fronteira, que também assina o processo. A casa de autores como Thomas Mann (que fugiu da Alemanha nazista), Elias Canetti (um dos grandes estudiosos da natureza autoritária do século 20) e ninguém menos que Jean Paul Sartre, que elevou o conceito de liberdade a patamares inéditos e de extrema dignidade, contraria agora o próprio catálogo ou revela nenhum compromisso para com ele. Alguém tem dúvida do que Sartre e Simone de Beauvoir, também autora da Nova Fronteira, diriam sobre esse processo?

Para que o Brasil cresça culturalmente, para que nunca mais a censura vigore por aqui, para que as ideias sejam debatidas com liberdade, para que as questões avançadíssimas de Guimarães Rosa façam eco em seu próprio país, para que possamos comemorar a liberdade de expressão em uma nação madura, o livro Sinfonia Minas Gerais: a vida e a literatura de João Guimarães Rosa, de Alaor Barbosa, deve voltar às livrarias o mais rápido possível.

Ricardo Lísias é escritor, autor de, entre outros livros, Duas praças e Anna O e outras novelas


Memória

O primeiro volume de Sinfonia Minas Gerais: a vida e a literatura de João Guimarães Rosa consumiu décadas de pesquisa de Alaor Barbosa, mas acabou proibido de circular por decisão do juiz Marcelo Almeida de Moraes Martinho, da 24ª Vara Cível do Rio de Janeiro. Editado pela LGE, o livro analisa a obra do escritor mineiro e narra memórias dos encontros de Alaor com o autor de Grande sertão: veredas. Deveria ter chegado às lojas no ano passado. No entanto, Vilma Guimarães Rosa, filha do autor, entrou com processo de indenização contra Barbosa por achar que o livro fere seus direitos autorais sobre a obra do pai. O processo, movido em parceria com a Nova Fronteira, editora de Rosa, levou a LGE a retirar 700 exemplares de circulação em outubro de 2008.

Fonte: Pensar, Correio Braziliense

terça-feira, 3 de março de 2009

Paulo Freire e os movimentos sociais


Em tempos de criminalização hedionda de movimentos sociais, eis a opinião do respeitadíssimo educador Paulo Freire:

"Estou absolutamente feliz por estar vivo ainda e ter acompanhando esta marcha, que, como outras marchas históricas, revelam o ímpeto da vontade amorosa de mudar o mundo (...)".

domingo, 1 de março de 2009

The Beatles


Sueño


Cada noche traspasamos los bastidores de nuestra conciencia para adentrarnos en un mundo oculto que se encuentra dentro de nosotros. Un lugar donde la lógica se esfuma y nos sumergimos dentro de las vivencias más surrealistas: somos capaces de volar, andar flotando, saltar los escalones de tres en tres; las personas con las que estamos de repente se transforman en otras; abrimos una puerta de nuestra casa y nos encontramos en algún terreno totalmente desconocido; los animales nos hablan; los seres queridos que ya han fallecido vuelven a estar con nosotros… Un mundo en el que todo, absolutamente todo, es posible. Leia mais aqui (no El País)