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E de repente é noite

Salvatore Quasimodo Cada um está só no coração da terra trespassado por um raio de sol: e de repente é noite.

E o teu vestido é branco

Salvatore Quasimodo Tens a cabeça baixa e me olhas: e o teu vestido é branco, e um seio aflora de entre as rendas soltas do teu ombro esquerdo. ... A luz me supera; treme, e te toca os braços nus. ... Revejo-te. Tinhas palavras poucas e breves, que punham alma no peso de uma vida que sabia a circo. ... Profunda era a estrada por onde o vento descia certas noites de inverno, e nos despertava estranhos como na primeira vez.

Antigo inverno

Salvatore Quasimodo Desejo de tuas mãos claras na penumbra da chama: sabiam a roble, a rosas; a morte. Antigo inverno. ... Buscavam milho os pássaros e eram súbito de neve; assim as palavras. Um pouco de sol, um halo de anjo, e logo a névoa; e as árvores, e nós feitos de ar na manhã.

Ode triunfal

Álvaro de Campos À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica Tenho febre e escrevo. Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto, Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos. Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno! Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria! Em fúria fora e dentro de mim, Por todos os meus nervos dissecados fora, Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto! Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos, De vos ouvir demasiadamente de perto, E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso De expressão de todas as minhas sensações, Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas! Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical - Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força - Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro, Porque o presente é todo o passado e todo o futuro E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e ...

Ode marítima

Álvaro de Campos Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de Verão, Olho prò lado da barra, olho prò Indefinido, Olho e contenta-me ver, Pequeno, negro e claro, um paquete entrando. Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira. Deixa no ar distante atrás de si a orla vã do seu fumo. Vem entrando, e a manhã entra com ele, e no rio, Aqui, acolá, acorda a vida marítima, Erguem-se velas, avançam rebocadores, Surgem barcos pequenos detrás dos navios que estão no porto. Há uma vaga brisa. Mas a minh'alma está com o que vejo menos. Com o paquete que entra, Porque ele está com a Distância, com a Manhã, Com o sentido marítimo desta Hora, Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea, Como um começar a enjoar, mas no espírito. Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma, E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente. Os paquetes que entram de manhã na barra Trazem aos meus olhos consigo O mistério alegre e triste de quem chega e parte. Trazem memórias de ca...

Saudação a Walt Whitman

Álvaro de Campos Portugal Infinito, onze de junho de mil novecentos e quinze... Hé-lá-á-á-á-á-á-á! De aqui de Portugal, todas as épocas no meu cérebro, Saúdo-te, Walt, saúdo-te, meu irmão em Universo, Eu, de monóculo e casaco exageradamente cintado, Não sou indigno de ti, bem o sabes, Walt, Não sou indigno de ti, basta saudar-te para o não ser... Eu tão contíguo à inércia, tão facilmente cheio de tédio, Sou dos teus, tu bem sabes, e compreendo-te e amo-te, E embora te não conhecesse, nascido pelo ano em que morrias, Sei que me amaste também, que me conheceste, e estou contente. Sei que me conheceste, que me contemplaste e me explicaste, Sei que é isso que eu sou, quer em Brooklyn Ferry dez anos antes de eu nascer, Quer pela Rua do Ouro acima pensando em tudo que não é a Rua do Ouro, E conforme tu sentiste tudo, sinto tudo, e cá estamos de mãos dadas, De mãos dadas, Walt, de mãos dadas, dançando o universo na alma. Ó sempre moderno e eterno, cantor dos concretos absolutos, Concubina fog...

Desabafo

Uma tortura ver o Milan derrotar os argentinos do Boca. A culpa é do Galvão Bueno. Ô narração chata da peste!